No passado dia 6 de fevereiro, na cerimónia de entrega de prémios da Revista de Vinhos, a VINEVINU foi distinguida com o prémio “Produtor Revelação 2025 em Portugal” — um reconhecimento relevante num dos mais respeitados fóruns do setor em Portugal.
A distinção levanta uma questão inevitável: o que é afinal a VINEVINU, e o que explica que um projeto com apenas 18 meses de existência já se afirme como produtor revelação num mercado altamente competitivo?
A resposta não se encontra apenas na qualidade dos vinhos, mas também na leitura estratégica do momento que o setor atravessa.
Um setor em transformação
O setor vitivinícola vive hoje a sua transformação mais profunda em décadas. O cenário é paradoxal: enquanto Portugal mantém a liderança mundial no consumo per capita, com 61 litros por pessoa, a base produtiva do país apresenta um encolhimento estrutural. Entre 1986 e 2025, Portugal perdeu cerca de um terço da sua área de vinha, passando de aproximadamente 258 mil para 175 mil hectares. Só na última década, desapareceram cerca de 50 mil hectares de vinhedos.
O consumo global caiu em 2024 para o nível mais baixo desde 1961. Contudo, o volume de negócios mundial tem-se revelado resiliente: embora o volume de vendas tenha diminuído, a faturação cresceu em segmentos específicos. O mercado atual já não exige volume, mas sim valor, diferenciação e propostas capazes de sustentar um posicionamento premium.
A evolução geracional: da infraestrutura ao conceito
É neste contexto de mutação que surge a VINEVINU, fundada na vindima de 2024 por Luís e Manuel Cerdeira, pai e filho, ambos enólogos. O objetivo é explorar a versatilidade da casta Alvarinho, captando a sua identidade em diferentes terroirs, entre a frescura marítima e a complexidade da montanha.
Em apenas 18 meses, a empresa exporta para mais de 15 mercados internacionais e conta com um portefólio de nove referências distribuídas estrategicamente: três vinhos de montanha em Melgaço, três de terroir marítimo em Famalicão e três espumantes. Para 2026, a empresa prevê um crescimento de 25% tanto no mercado nacional como na exportação.
A trajetória da família Cerdeira ilumina a própria evolução do setor. Em 1974, quando João Cerdeira plantou a primeira vinha contínua de Alvarinho em Melgaço, a prioridade era a construção das bases: adegas, infraestruturas e profissionalização técnica. Quando Luís Cerdeira se licenciou em Enologia na UTAD, o foco ainda residia na consolidação dessas competências.
Atualmente, o desafio é radicalmente distinto. Uma vez que as infraestruturas e o conhecimento técnico estão amplamente disseminados, a prioridade já não é a expansão da área plantada. O desafio contemporâneo concentra-se na criação de conceitos competitivos e propostas de valor inovadoras.
O modelo asset-light e a criação de valor
A VINEVINU opera com uma lógica de startup, adotando um modelo asset-light. Em vez de imobilizar capital em betão, a empresa opta por rentabilizar estruturas existentes e concentrar o investimento no conhecimento, na inovação e na qualidade do produto.
O capital humano é um dos pilares desta estratégia. Cerca de 50% da equipa tem menos de 30 anos — uma escolha deliberada. A empresa desenvolve ainda parcerias com o ISEP para estudar os diferentes comportamentos da casta Alvarinho nos vários terroirs que explora: marítimo, vale fluvial e altitude.
Como fruto destas estratégias de inovação surge o Espumante Impossível, elaborado com uvas de Paredes de Coura, porventura o território mais hostil à cultura da vinha. Este projeto demonstra que as alterações climáticas e os territórios de montanha apresentam novas oportunidades, permitindo criar riqueza em regiões de baixa densidade.
Produzir menos, criar mais valor
Os dados indicam que o futuro do setor passará inevitavelmente por produzir menos, mas vender melhor. A viabilidade das empresas vitivinícolas depende agora da sua capacidade de adaptação, leitura de mercado e criação de valor intangível.
Projetos como a VINEVINU demonstram que tradição e inovação não são opostas, mas complementares — e que a agilidade pode ser, hoje, o ativo mais valioso do setor.