Em dezembro de 2025 a VINEVINU, uma startup de Melgaço que procura explorar a versatilidade do Alvarinho no mar e na montanha, lança ao mercado o Espumante Impossível, o primeiro espumante produzido em Paredes de Coura. Um espumante Brut Nature que nasce da altitude, da coragem e da crença de que, mesmo nos territórios improváveis, é possível inovar.
Manuel Cerdeira, a herança de uma paixão
A história deste espumante começa com Manuel Cerdeira, jovem enólogo português de 23 anos formado no Plumpton College, no Reino Unido, uma das escolas que mais contribuiu para o desenvolvimento dos espumantes ingleses. O crescimento deste setor, impulsionado por alterações climáticas e por uma nova geração de produtores, transformou o sul de Inglaterra num dos terroirs mais promissores do mundo para espumantes de método tradicional.
Durante o seu percurso académico, Manuel aprofundou a arte da precisão, a paciência do tempo, a importância da acidez e o respeito pelo terroir. Mas havia em si uma herança mais antiga: o pai, Luís Cerdeira, foi o primeiro enólogo a elaborar em Melgaço um espumante de Alvarinho em 1995, na adega familiar Soalheiro, fundada pelo seu pai João Cerdeira.
Essa ligação familiar à inovação e ao rigor marcou-o. Ao regressar a Portugal e fundar com o pai a VINEVINU, Manuel trouxe um propósito claro: encontrar o território certo para criar um espumante de frescura, elegância e identidade própria.
Paredes de Coura: um território onde tudo é possível
Durante décadas, o concelho de Paredes de Coura foi descrito como um território onde “não se faz vinho”. A fragmentação da propriedade, a altitude e o clima húmido pareciam impossibilitar qualquer viabilidade vitícola. Segundo o estudo de Vítor Paulo Pereira, ex-presidente da Câmara Municipal e autor do projeto “Um Sonho Feito de Excel”, a produção de vinho no concelho chegou a ser residual — apenas 300 litros na campanha de 2017/18, em contraste com os mais de 5 milhões de litros da sub-região Monção e Melgaço.
Contudo, o mesmo estudo mostrava que o futuro da agricultura courense dependia da inovação, do conhecimento e da capacidade de desafiar o impossível. As altitudes, antes vistas como obstáculo, tornaram-se agora uma vantagem, sobretudo para castas brancas de acidez natural.
Em 2024, no âmbito do curso de gestão e marketing School of CEOs da Universidade do Minho, Vítor Paulo Pereira apresentou como projeto final o estudo de um vinho em Paredes de Coura, batizado “Vinho Impossível”. O corpo docente considerou-o idealista e pouco viável. O tempo provou o contrário.
Hélder Pedreira e Wilson Braga, a coragem da primeira vinha
Durante a pandemia, Hélder Pedreira e Wilson Braga decidiram desafiar o senso comum. Plantaram o primeiro hectare e meio de vinha contínua em 2020, seguido de mais um hectare e meio em 2022. Até então, as vinhas em Coura existiam apenas em pequenas parcelas familiares para consumo próprio.
Foi Vítor Paulo Pereira quem uniu as peças deste projeto. A sua visão juntou os viticultores Hélder e Wilson aos enólogos Manuel e Luís Cerdeira, dando origem a uma parceria inédita: o saber da terra encontrou a precisão da adega.
Dessa união nasceu o Espumante Impossível, um Brut Nature de frescura vibrante e acidez marcada, fermentado em garrafa segundo a metodologia tradicional, com a precisão que só a altitude de Coura poderia oferecer.
Mais do que um vinho, é a prova de que a coragem, o conhecimento e o encontro entre gerações podem transformar um mito em realidade.